O herói era você... ou não? Games que você descobre que estava do lado errado
Existe um momento especial que todo jogador adora. Assumir o papel do herói, derrotar monstros, impedir catástrofes e receber os aplausos no final da jornada. Afinal, videogames nos acostumaram a acreditar que estamos sempre salvando o mundo.
Só que alguns jogos te colocam no centro de uma missão aparentemente justa, cercam a aventura com boas intenções e deixam pequenas pistas espalhadas pelo caminho. Aí chega aquela revelação que faz o cérebro dar tela azul por alguns segundos.
Eles usam narrativa, perspectiva e manipulação do jogador pra construir uma verdade confortável… até arrancar o tapete no momento certo. E quando isso acontece, você começa a rever tudo o que fez durante a campanha.
Separamos alguns dos exemplos mais marcantes de games que transformam completamente a percepção do jogador e mostram que talvez o verdadeiro vilão estivesse segurando o controle o tempo todo.
Spec Ops: The Line
Poucos jogos conseguiram desconstruir o conceito de herói tão bem quanto Spec Ops The Line. O que começa como uma missão militar relativamente simples logo se transforma em uma descida sufocante por uma Dubai destruída pela guerra e pela loucura.
O Capitão Martin Walker acredita estar fazendo a coisa certa. Você acredita também. É natural. Afinal, o jogo se apresenta como um shooter militar tradicional. Armas, combates e missões de resgate parecem indicar exatamente para onde a história vai.
Mas não vai.
O jogo não entrega a verdade de uma vez. Ele faz o jogador participar da tragédia. Quando a história finalmente revela o tamanho do estrago, a sensação não é de vitória. É de desconforto.
Conforme o jogo avança, é revelado que, por causa de alucinações e surtos psicóticos, você cometeu um massacre e atrocidades (incluindo o uso de fósforo branco contra civis) na tentativa de justificar seus próprios crime. Poucos shooters tiveram coragem de mexer tanto com a cabeça de quem joga.
Braid
À primeira vista, Braid parece uma carta de amor aos clássicos jogos de plataforma. O protagonista Tim percorre mundos fantásticos em busca de uma princesa, enquanto manipula o tempo para superar quebra cabeças brilhantes.
A cada fase existe uma sensação curiosa de que algo está fora do lugar. O jogo espalha pistas discretas em diálogos e ambientes. Conforme você avança, a narrativa vai ficando mais ambígua. Aquela clássica missão de resgate deixa de parecer heroica e passa a soar estranhamente obsessiva.
A reviravolta ocorre nos momentos finais, onde as pistas revelam que você é, na verdade, um perseguidor obcecado. A princesa está fugindo desesperadamente de você, e o poder de voltar o tempo que você usa não é para salvar o dia, mas sim para forçar a aproximação.
Shadow of the Colossus
Um dos maiores clássicos da era PlayStation 2. No começo, parece uma missão quase heroica. Você atravessa planícies vazias, montanhas gigantescas e ruínas esquecidas pelo tempo em busca de gigantes colossais na esperança de reviver sua amada.
Só que existe algo estranho desde o início. Esses seres não parecem agressivos. Muitos vivem isolados, quase indiferentes à sua presença. Quando um deles cai, não existe comemoração. Não existe sensação de triunfo. Apenas um vazio crescente.
Toda essa batalha apenas para descobrir que os "gigantes" eram guardiões selados, e que você foi manipulado por uma entidade malévola para libertá-la, transformando sua jornada heróica em um ato de pura destruição.
Knights of the Old Republic
Todo fã de Star Wars conhece o peso que uma boa revelação pode ter. Ainda assim, Knights of the Old Republic conseguiu criar uma das maiores surpresas já vistas nos videogames.
A aventura começa como uma clássica jornada espacial. O jogador assume o papel de um personagem aparentemente comum envolvido em uma guerra que definirá o futuro da galáxia. Planetas exóticos, batalhas épicas e escolhas morais constroem uma narrativa gigantesca. Mas existe uma peça escondida nesse enorme quebra cabeça.
Tudo parece seguir o caminho clássico. Heróis, vilões e uma luta pelo destino da galáxia. Até que uma revelação muda absolutamente tudo. Seu personagem é, na verdade, Darth Revan, o antigo e temido Lorde Sith que quase destruiu a galáxia antes de ser traído por seu aprendiz e ser capturado pela própria Ordem Jedi e ter a mente apagada para se transformar em uma "arma secreta" da República.
Crackdown
Nem todo vilão usa capa. Nem toda organização que promete ordem está realmente interessada em liberdade.
Crackdown constrói sua fantasia de poder de forma brilhante. Você assume o papel de um agente superpoderoso encarregado de combater o crime e restaurar a ordem em uma cidade dominada por organizações criminosas.
Só que, aos poucos, a história começa a sugerir que nem tudo é tão preto no branco quanto parece. As motivações da agência que comanda suas ações levantam questionamentos interessantes sobre controle, manipulação e poder.
O jogo brinca com a ideia de autoridade e manipulação, mostrando que talvez o “herói” seja apenas a ferramenta perfeita de um sistema corrupto onde a sua própria agência criou o caos que você combate para justificar seu próprio controle autoritário.
Prey
Em Prey, você acorda em uma estação espacial cercada por mistérios, criaturas alienígenas e perguntas sem resposta. A missão parece simples. Sobreviver, encontrar aliados e escapar daquele pesadelo.
Só que a estação Talos I guarda segredos em praticamente cada corredor. Conforme novas informações surgem, o jogo começa a brincar com identidade, memória e percepção da realidade. O resultado é uma história que desafia constantemente tudo aquilo que o jogador acredita saber.
Quando a verdade começa a aparecer, o jogador percebe que esta sendo usado como um experimento para criar empatia nos alienígenas, o que o torna, ironicamente, o responsável pelo surto ou a chave para a salvação da Terra
O mais interessante nesses jogos não é simplesmente descobrir que você estava do lado errado. É perceber como chegou até lá.
Nenhum desses protagonistas acorda decidido a se tornar um vilão. Eles acreditam estar ajudando alguém, salvando uma cidade, cumprindo uma missão ou corrigindo uma injustiça.
É aí que esses games se tornam memoráveis. Eles não mudam apenas o enredo. Eles mudam a forma como você enxerga a própria jornada que acabou de viver.
Será que o verdadeiro inimigo estava mesmo do outro lado da tela? Ou ele esteve segurando o controle durante toda a aventura?